É com enorme tristeza que comunicamos o falecimento do nosso colega e associado João Canijo. As nossas mais sinceras condolências à família e a todos os amigos. É uma perda imensa para o cinema português e para todos nós.
Partilhamos um texto da realizadora Leonor Teles, colaboradora do João na direção de fotografia das suas obras mais recentes, ‘Mal Viver’, ‘Viver Mal’ e ‘Encenação’, seguido da sua filmografia.
Até sempre.

“O João começou a trabalhar em cinema um pouco (muito) antes de eu ter nascido. Realizador com uma carreira sólida cujos filmes marcaram uma geração. Ninguém é indiferente a um “Ganhar a Vida” ou a uma “Noite Escura”.
O “Canojo”, como era informalmente apelidado e com o qual o próprio brincava (não fosse ele o mestre das alcunhas – ninguém escapava!), não era uma figura fácil. Como, aliás, me parece uma tendência nos artistas que mais me tocam. O João tinha a qualidade de acreditar no trabalho dos seus cúmplices e ele, mais que ninguém, dependia das suas actrizes. Ou não fosse o cinema essa arte colectiva.
Com “Mal Viver”decidiu tentar algo novo, diferente e arriscar, um movimento admirável para um realizador como ele, pois podia facilmente ter continuado a repetir receitas e padrões. É neste contexto que começa a nossa relação.
Ele convida-me para fotografar o seu filme. O nosso encontro dá-se no cinema. Na troca de referências, de filmes, na intimidade e partilha do gosto pelos mesmos autores. Pela estética asiática. Pela sugestão, em vez da ilustração.
O João falou diversas vezes sobre a seriedade do que se está a fazer, sobre uma certa honestidade em relação aos filmes que fazemos e por que os fazemos. Eu diria que as razões que nos levam a fazer filmes são emocionais. Não são cinematográficas.
Conheci-o como alguém que exalava e vivia cinema e que queria sempre fazer mais e melhor. Sempre com novas ideias e projectos. Obcecado e exigente com o trabalho. Ficámos amigos.
Embora tivesse um processo criativo bastante ancorado na teoria, algo na sua intuição permitia-lhe confiar nas pessoas em quem apostava. Porque depois no fundo era sobre emoções. Sobre relações intensas, por vezes, intempestivas, e como se criava a partir daí, porque era necessário elevar a fasquia e conceber o melhor filme possível. O nosso desafio era esse. Não cair no facilitismo. Como encontrar a linguagem, o estilo, a pintura do filme. Como elevar o seu trabalho.
Com “Encenação” João volta a arriscar. Volta a tentar algo novo, maior. Volta a superar-se. E olha para si, no tal gesto de honestidade sobre as coisas de que precisamos de falar (ou enfrentar) e o porquê de fazermos filmes – o encontro com o outro e as nossas relações, neste caso, as suas que já existiam muito antes de mim. Relações essas que regiam a sua vida e o seu cinema.
Este último através do artífice do teatro, como numa encenação que imita a vida e a homenageia e às pessoas que sempre o acompanharam e co-criaram com ele. Uma necessidade quase física de desabafar e dizer qualquer coisa em voz alta, seja um pedido de desculpas ou uma declaração de amor (ou ambos).
Quer se goste ou não dos filmes de João Canijo, o cinema português ficou sem dúvida mais vazio. E eu perdi um amigo. Como ele dizia de cigarrilha na boca entre uma risada daquelas “a vida é demasiado curta para nos privarmos de merdas”. ” (Leonor Teles, fevereiro de 2026)

FILMOGRAFIA
Encenação (em pós-produção)
As Ucranianas (em pós-produção)
2023 – Mal Viver
2023 – Viver Mal
2020 – Fojos (co-realização com Anabela Moreira)
2017 – Fátima
2017 – Portugal, Um dia de Cada Vez (Diário das Beiras) (co-autoria com Anabela Moreira)
2017 – Portugal, Um Dia De Cada Vez (Trás-os-Montes) (co-realização com Anabela Moreira)
2016 – O Dia do Meu Casamento (co-realização com Anabela Moreira)
2013 – É o Amor
2013 – Obrigação
2012 – Raul Brandão era um grande escritor
2011 – Sangue do Meu Sangue
2011 – Trabalho de Actriz, Trabalho de actor
2010 – Fantasia Lusitana
2007 – Mal Nascida
2006 – Mãe Há Só Uma
2003 – Noite Escura
2000 – Ganhar a Vida
1997 – Sapatos Pretos
1989 – Filha da Mãe
1985 – Três Menos Eu
1983 – A Meio Amor